Só o ser humano faz Arte

A Arte é mais que expressão pessoal ou uma forma de conhecimento, é um ato de criação e como tal, um ato de Amor.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

MARINHA I

Quando o mar vai ter à praia em ondas
se espalha na areia e a espuma chia
parece mil vozes miúdas cochichando
e mil pequenos ouvidos se abrem atentos
quando ela passa...
E escorrega serena, muda e macia
une-se silenciosamente ao poderoso mar
que a puxa de volta com ardorosa ânsia
só para então novamente lançar-se
como onda que se espalha

salgada e farfalhenta sobre a areia.



Mais um poema da minha série Marítima... este também foi publicado, não me lembro aonde.

SAUDADE

Minha lembrança de ti é como o encanto das coisas que
respiram nas sombras... misteriosa e silenciosamente presente

Todos os sentimentos são reais
e todos fáceis de sentir.
como um rio que flui
passam as águas,
dentro do peito
pelos olhos,
pela boca de todos nós.
um só sentir é tão difícil
que nos tira do chão
nos deixa sem teto
sem ar...
o que nos deixa soltos ou perdidos,
percorrendo todos os tempos e lugares:
- é a saudade -
a saudade nostálgica
daquilo que está distante,
a saudade melancólica
daquilo que passou,
a saudade ansiosa
daquilo que poderá vir a ser.



Este poema está publicado em uma Antologia de 1993.. são tantos poemas esparsos, que nem me lembro mais o nome da Coletânea. Há muito mais... este é apenas uma gota de um oceano que transbordo vez por outra!

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

À LA CARTE OU FAST FOOD?

Já se foi o tempo de podermos ir a um bom restaurante à la carte centro do Rio de Janeiro. Saudosismos à parte, a escolha depende de como você decide viver a vida. Desde o serviço à comida, os restaurantes tem se moldado a influencia nociva a saúde e ao bem estar das lanchonetes tipo Mc Donald que invadiram a cidade e os bons e agradáveis estabelecimentos. Comia-se bem e com tempo, aliás, o tempo que você quisesse, afinal, vivemos numa Democracia, não? Sentar-se à mesa não é o mesmo que comer em pé, ou pegar sua bandeja e disputar uma vaguinha numa mesa qualquer para devorar rapidamente seu lanche. Sentar-se à mesa é mais que cultural; é um hábito saudável que visa a manutenção da qualidade de vida nestas Metrópoles enlouquecidas.
"Se a comida é boa, o atendimento pode melhorá-la" é uma idéia popular, mais percebida e sentida que dita, mas ainda assim, bem verdadeira. Nos restaurantes do centro do RJ, isso sempre se comprovou: comia-se, conversava-se, faziam-se negócios, namorava-se e muito mais. Tudo regado a chope, coca-cola e churrasquinho, batata frita ou mesmo a indescritível feijoada brasileira. E tudo isso era apenas o complemento para o corpo, porque a alma estava mais que satisfeita em sentar, em estar à vontade, em poder desfrutar de algumas horas para si mesmo. E satisfeita com o serviço, daí a gorjeta ser sagrada - além dos 10% institucionais, a gorjeta camarada pelo bom atendimento, pela paciência, sempre foram regras máximas deste tipo de convívio.
Entretanto, tudo isto mudou. A ganância capitalista, a competição absurda pelos lucros semelhantes às redes fast food, os rodízios de péssima qualidade visando lucratividade máxima, custo mínimo em tempo record... Tudo isto levou os bons e antigos restaurantes do RJ a atenderem mal, a adotar comidas congeladas e a tratar os clientes com a indiferença típica das mais famosas lanchonetes do mundo, com a diferença de alguns minutos, porque não dá para ser tão dinâmico como das lojas do famoso palhaço.
E escrevo isso porque na última sexta-feira, como de costume (meu, é claro), dirigi-me ao restaurante que sempre freqüentei - a Spaguettilandia na Cinelândia - e ao entrar tive uma enorme decepção. Dia de feijoada, sim, mas e daí. Escolhi a mesa que queria e o garçom veio logo me avisando de que eu não poderia reter a mesa. "Como assim, reter a mesa, não entendi?" E resolvi mudar de mesa para trocar de garçom pensando ser um dia ruim para aquele funcionário, especificamente. Qual não foi o meu espanto, e o mesmo se repetiu: "tem que ser rápido, dona, hoje é dia de feijoada, é sexta-feira, tem que comer rápido!” “Não entendi”, (às vezes, a surpresa é tamanha que deixa a gente meio burra e sem fala!), pensei ainda comigo. Mas respondi, sem altercar: Vou almoçar, posso? Não quero feijoada, vou pedir o de sempre!" E ponto final. Sentei acompanhada de meu filho e amigo. Mas, o ranço do mau tratamento ficou e não desceu nem com chope nem com refrigerante. Decidi. Levantei-me e fui falar com o gerente. Casa cheia, o caixa atolado, mas insisti e falei com o gerente que tergiversou e desmentiu os seus garçons: "o que é isso, dona; a senhora pode ficar o quanto quiser, tá pagando num tá, então...” e encerrou assim.
Voltei à mesa, e confirmei o pensamento anterior - maus dias para os garçons... quem sabe, pouca gorjeta, salário baixo, problemas pessoais, sei  lá, não importa. Vou almoçar e assim  fiz. Almocei, pedi sobremesa, água e cafezinho. Conversei, relaxei, umas 2 horas no máximo, tempo do meu almoço. Então, ao pagar a conta, resolvi dar uma gorjeta a mais, quem sabe, pela paciência exercida a contragosto do garçom. Para meu novo espanto (este almoço foi marcado de espantos!) o garçom sorriu meio constrangido, talvez pelo prêmio não merecido e desculpou-se, explicando: "É a orientação dona, ele é que manda tocar o pessoal para vagar mais mesas!" Ouvi, mas não fiz caso, afinal, ele poderia apenas estar justificando seu constrangimento. Para minha última surpresa, o gerente com quem tinha reclamado de início, chamou-me, agora com a casa mais vazia, e com ar de crítica e meio altivo, disse:"Que almoço demorado heim dona!" Diante da petulância estratégica, ainda lhe respondi com certa predileção: "sabe por que venho aqui? Sabe por que sempre escolhi e escolho a Spaguettilandia há anos? Porque sempre fui bem tratada e pude comer à vontade, sem pressa. É o único dia que posso dispor assim do meu tempo, e nunca tive problemas. Como você mesmo disse a pouco: Afinal, eu estou pagando, consumindo e pagando! Mas agora ficou diferente e não venho mais.” Antes de sair, ainda acrescentei: “ E não se esqueça de colocar nas portas, às sextas -feiras: Feijoada completa - 2 pessoas - 20 minutos no máximo por mesa." E saí.
Fica aí, registrado meio em crônica, mais este absurdo cotidiano deste século, onde presenciamos boquiabertos e impotentes a degeneração da raça humana, através da decadência dos relacionamentos, dos serviços, dos atendimentos, etc.  E eu pergunto a quem souber responder: para que ter tanto, possuir tanto, cultivar somente riquezas e coisas se não se pode tirar proveito disso, se o principal está morrendo? A ditadura do Capital está acabando com o melhor da raça humana e olha que não é à la carte, porque o cidadão nem tem escolha. A coisa é assim empurrada goela abaixo, no estilo drive-tru: "enche o tanque, pega o lancha e paga que atrás vem gente!"